Uvas com sabor a manga ou algodão doce são saudáveis?

Como a grande maioria das uvas disponíveis no mercado, estas não têm grainha — uma outra modalidade do fruto que surgiu através de um processo semelhante de hibridação de espécies. De uma forma mais técnica, David Monteiro adianta que os diferentes sabores resultam da “aplicação de pólen de algumas variedades existentes de uvas às flores de outras”. Desta forma, os produtores conseguem alcançar “combinações aleatórias” que são, numa fase posterior, apresentadas a um “painel de provas”. É neste etapa que se decide quais são as “uvas mais especiais para serem cultivadas”.
O processo em si não é fora do comum, como explica ao Observador o nutricionista Rui Valdiviesso. “A forma de produzir estas uvas é uma fórmula que a humanidade já usa há milénios”, admite o especialista, fazendo um paralelismo com uma outra aplicação das uvas: o vinho. “Quando se utiliza uvas para vinificação, muitos depois têm sabores extremamente complexos. E claro, a origem desses sabores já estava na uva”, afirma, mencionando que são “frutos com uma quantidade enorme de moléculas diferentes”.
Com tamanha variedade de espécies, “a concentração, a reação com outras [espécies] e a própria maturação” cria as diferentes expressões moleculares que depois originam os sabores que remetem para outros alimentos fora deste meio. E este processo não foi repetido apenas para alcançar este sabor final, mas também para a textura da própria uva, ou até mesmo a cor e as suas dimensões. Porém, uma das mutações genéticas naturais que destaca é a ausência de grainha, que se vê atualmente nas prateleiras de todos os supermercados e que foi alvo do mesmo processo de “seleção artificial”.
Se o sabor destas uvas vem do cruzamento de diferentes espécies, resta a questão: De onde vem o sabor a algodão doce? Afinal, o autocolante na embalagem diz claramente: “Sabor a algodão doce”. Efetivamente, no procedimento habitual de produção destes alimentos, os nomes das variedades são atribuídos em função do sabor que fazem lembrar, não necessariamente daquilo que é utilizado artificialmente para intensificar a experiência gastronómica.
Neste caso em específico, não se trata de inserir de alguma forma algodão doce em cada uma das uvas, mas sim um desígnio por aproximação. Como explica o líder da categoria fruta e legumes do Continente, o “algodão doce” é um sabor fortuito que resultou de um processo natural. Desta forma, apesar de o produto ser apresentado como tendo “sabor a algodão doce”, “o sabor não é de algodão doce, mas antes um sabor que remete para o algodão doce”.
O mesmo verifica-se para os produtos que são vendidos como tendo sabor a manga ou morango, por exemplo. Apesar de cruzamentos entre diferentes frutas serem possíveis e até relativamente comuns na natureza, como refere a nutricionista Conceição Calhau.
À primeira vista, as uvas com sabor a algodão doce parecem uvas “normais”. Algumas pessoas nas redes sociais admitem que as compraram acidentalmente e só se aperceberam da diferença quando deram a primeira dentada. Aí, a diferença sente-se de imediato, com um travo doce nas papilas gustativas. Neste momento, até se pode sentir que estas uvas têm um teor de açúcar bastante mais elevado que a uva clássica. Porém, de acordo com informação disponível online, estas têm entre 16 e 17 gramas de açúcar por cada 100 gramas de uva.
Comparado com uma uva verde clássica — que tem entre 13 a 15 gramas — não é uma diferença assinalável. Num contexto geral de fruta, a uva por si já é das mais doces. Para referência, uma maçã tem entre 10 e 13 gramas de açúcar por cada 100, e uma melancia tem entre oito e nove gramas. Ainda assim, apesar de ser uma fruta com um teor elevado de glucose e frutose — e esta variante ser parcialmente mais doce — a sua ingestão continua a ter grandes benefícios.
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