Principais conclusões da conferência do Diálogo Nacional da Síria
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O Diálogo Nacional da Síria, um momento-chave na transição política do país após a queda do presidente Bashar al-Assad em dezembro, foi concluído na terça-feira.
Uma declaração feita no final da conferência de um dia, que só foi anunciada no domingo e deu a muitos participantes em potencial pouco tempo para se preparar, abriu caminho para a elaboração de uma nova constituição e enfatizou a importância da liberdade de expressão e dos direitos humanos.
Entre os participantes estava o presidente sírio Ahmed al-Sharaa, que havia anteriormente pedido aos sírios que “permanecessem unidos e de mãos dadas para curar as feridas e lavar as dores após décadas de ditadura”.
Aqui estão três principais conclusões da conferência:
Qual será a nova constituição da Síria?A natureza da revolução da Síria – uma rejeição completa do governo de décadas da família al-Assad e do partido Baath – significa que uma nova constituição era esperada.
A natureza dessa constituição revelará muito sobre o futuro da Síria, principalmente porque muitas pessoas ainda têm dúvidas sobre as intenções de al-Sharaa, tendo em vista sua antiga filiação à Al-Qaeda.
Al-Sharaa foi rápido em se distanciar de seu passado e evitou amplamente a retórica divisionista.
No Diálogo, os delegados foram divididos entre grupos de trabalho, cada um com foco em um tópico diferente, incluindo constituição, liberdades, economia e sociedade civil.
Houda Atassi, membro do Comitê Preparatório para o Diálogo Nacional que leu a declaração na conclusão da conferência, disse que o comitê havia pedido uma “declaração constitucional temporária” e um “conselho legislativo temporário” para ajudar a determinar o futuro do país.
O projeto de constituição deve alcançar “um equilíbrio entre autoridades, estabelecendo justiça, liberdade e igualdade, e lançando as bases para um estado de direito e instituições”, diz a declaração completa.
No entanto, nenhum outro detalhe foi dado, e as discussões no workshop foram confidenciais, deixando a questão de como a constituição tomaria forma ainda em aberto, apenas alguns dias antes do prazo previamente declarado de 1º de março para um novo governo de transição assumir o poder.
Soberania e ações de IsraelA declaração final rejeitou veementemente as ações de Israel na Síria desde a derrubada de al-Assad, chamando-as de “flagrante violação da soberania do estado sírio”.
Israel moveu suas forças para uma zona tampão entre a Síria e as Colinas de Golã, que é, por si só, território sírio ilegalmente ocupado por Israel. Israel também assumiu o controle de áreas fora da zona tampão, incluindo o Monte Hermon, e conduziu repetidos bombardeios em locais militares, incluindo ataques durante a noite de terça-feira.
O Diálogo Nacional apelou à “retirada imediata e incondicional” das forças israelitas da Síria.
O governo rejeitou a ameaça do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu de que seu país não permitiria que forças militares sírias estivessem presentes no sul da Síria.
A conferência também se opôs às tentativas de Israel de atiçar tensões sectárias, indicando que estava disposto a proteger a comunidade minoritária drusa da Síria, muitos dos quais vivem no sul.
O comitê apelou à “unidade da República Árabe Síria” e à “soberania sobre todo o seu território, rejeitando qualquer forma de fragmentação, divisão ou cessão de qualquer parte da pátria”.
O novo governo da Síria está em negociações com as Forças Democráticas Sírias (FDS), um grupo liderado pelos curdos que controla grandes partes do nordeste da Síria.
As SDF apoiadas pelos Estados Unidos têm hesitado em entregar suas armas e expressaram o desejo de algum governo autônomo nas áreas que controlam, o que o governo sírio rejeita.
Direitos e liberdadesA declaração de encerramento também apelou ao “apoio ao papel das mulheres em todos os campos” e à “rejeição de todas as formas de discriminação com base na raça, religião ou seita”.
Também rejeitou pedidos de cotas étnicas ou religiosas no governo — algo ao qual al-Sharaa e outros ministros já haviam indicado sua oposição.
O lugar das mulheres no novo governo não ficou claro após declarações de certos ministros. Por exemplo, Aisha al-Dibs, chefe do Escritório de Assuntos Femininos no governo interino da Síria, havia dito anteriormente em dezembro que as mulheres desempenhariam um papel fundamental, mas não “iriam além das prioridades de sua natureza dada por Deus”, e conheceriam “seu papel educacional na família”.
O Ministro das Relações Exteriores da Síria, Asaad al-Shaibani, foi rápido em refutar essas declarações na época, dizendo que as novas autoridades “acreditam no papel ativo das mulheres na sociedade”.
A declaração de encerramento do Dialogue pediu a proteção das liberdades, incluindo a liberdade de opinião e expressão. Isso marcará uma profunda diferença em relação ao regime anterior, sob o qual os sírios eram regularmente presos por suas falas.
Outra questão de direitos mencionada na declaração de encerramento foi alcançar a justiça transicional e responsabilizar “os responsáveis por crimes”, enquanto “rejeita todas as formas de violência, incitação e vingança”. Relatos surgiram nas últimas semanas de ataques de vingança contra pessoas associadas ao regime de al-Assad em Homs e outras partes do país.
O Diálogo Nacional foi elaborado rápido demais?Houve muita confusão em torno do Diálogo Nacional antes mesmo de ele começar, com muitos convites enviados de última hora.
O político da oposição George Sabra postou nas redes sociais que recebeu um convite em 23 de fevereiro, dois dias antes do evento, para estar presente em Damasco. Sabra vive exilado na França e disse que não conseguiu viajar para a Síria a tempo.
Críticos dizem que a natureza do anúncio do Diálogo Nacional é parte de um padrão mais amplo que tem preocupado os sírios que pressionam pelo pluralismo democrático, com poucos detalhes fornecidos sobre o cronograma das eleições e quão livre a nova Síria será.
Houve dúvidas sobre as negociações devido ao que os críticos rotularam como falta de representação no comitê preparatório.
Mas mesmo com o anúncio repentino da data do Diálogo Nacional, aproximadamente 600 sírios compareceram às negociações, e muitos acreditam que este é um passo importante no caminho para eleições e uma nova Síria, livre de décadas de ditadura.
Al Jazeera